Discurso do Professor Titular Cássio de Mesquita Barros Júnior, Diretor-Presidente da Fundação Arcadas, na Cerimônia de Posse do senhor Ministro Vantuil Abdala na Presidência do Tribunal Superior do Trabalho, no dia 13 de abril de 2004.

 

 
 

 

 

Senhores e senhoras:

 

Neste planalto, no centro da pátria, na cidade concebida como síntese do equilíbrio de um processo de desenvolvimento harmônico entre as diversas regiões do país, contemplamos hoje mais uma página da história da Justiça do Trabalho, amparados pelo incontável número de manifestações sinceras e patrióticas, vindas dos mais diversos quadrantes do território nacional, contagiados pelo entusiasmo do reencontro das  autoridades da República,  membros deste Tribunal, representantes de outros Tribunais, do Ministério Público, procuradores, advogados, enfim da família judiciária.

 

Essa página, antes de tudo, contém uma lição da observância do princípio democrático da alternância na gestão. A escolha de seus dirigentes se guia pelo critério da antiguidade, assegurando  sucessão tranqüila e verdadeira democracia participativa.

 

No Brasil, sacudido pela violência urbana e rural, pelas fraquezas humanas, freqüentemente reveladas pela imprensa, a comunidade social necessita, para se recobrar, dos exemplos de ordem, disciplina, respeito mútuo, que neste Tribunal  se praticam diariamente nos procedimentos e nas sessões de julgamento. Esse ambiente atrai a estabilidade, a pacificação, a consciência da intransferível responsabilidade  pela coesão e destino da instituição. Afinal, o que é a pátria senão esses sentimentos e essa compreensão de cada um?

 

A emoção dessas cerimônias, de significado tão intenso, está no adeus que se vai dizer aos que, como o Ministro FRANCISCO FAUSTO PAULA DE MEDEIROS, deixam a administração e o convívio do Tribunal.

 

O conheci como magistrado e professor desde Natal. Foi professor de Filosofia do Colégio Estadual Ateneu Norte Rio Grandense, jornalista e literato.  Sua vocação sacerdotal pelo exercício da magistratura fez com que em sua longa carreira de magistrado, desde a Presidência da Junta de Conciliação e Julgamento de Natal até a posse no cargo de Presidente deste Colendo Tribunal Superior do Trabalho, em 10 de abril de 2002, tenha sido sempre contemplado com promoções por merecimento. Ama a leitura dos clássicos, a independência de opinião na busca da Justiça e da verdade. No trato com os advogados e funcionários tem sido sempre cordial sabendo separar o cargo de sua pessoa, num convívio natural e espontâneo com os  seus incontáveis amigos. A simplicidade e generosidade de anfitrião inigualável é cantada em prosa e verso na Justiça do Trabalho. Sua dedicação à esposa e aos filhos lhe reserva agora o regaço de uma família exemplar.

 

A emoção desta assembléia continua na recepção dos Ministros Vantuil Abdala, Presidente, Ronaldo José Lopes Leal, Vice-Presidente, e  Rider Nogueira de Brito, Corregedor Geral. Estes, no entusiasmo de seus triunfos, assumem o novo período de gestão da Justiça do Trabalho, não sem as dúvidas e ansiedades de um futuro desconhecido. Mas para o coração não há passado, nem futuro, nem pretérito, tudo é atualidade, presença animada, palpitante e criadora.

 

Recebam uns e outros, Senhores Ministros, as palmas e as orações de todos, com as bênçãos que lhes proporcionem os frutos merecidos.

 

Num dia, assim, de raro regozijo e alegria, o  Digno Presidente do Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil, o “batonnier” dos advogados, ROBERTO ANTONIO BUSATO, por se encontrar hoje em missão no Sul da África, conferiu-me a insigne honra, senão o encanto, de vos trazer o pensamento dos ADVOGADOS BRASILEIROS, hoje em número superior a 465 mil profissionais, contados 47.000 estagiários.

 

Perto dos 50 anos de advocacia, contado o período de “office boy”, as experiências acumuladas, nos permitem repetir, com toda convicção, que na missão do advogado também se desenvolve uma espécie de magistratura. Ambas, embora diversas às funções, se entrelaçam. São idênticas no objeto e no resultado: a justiça. Como afirmou Rui Barbosa na Faculdade de Direito de São Paulo, na “Oração aos moços”, com o advogado está a justiça militante. Com o magistrado a justiça imperante.

 

No mundo materialista e na corrida desenfreada em busca do dinheiro e do lucro, a justiça humana desempenha um papel essencial de regeneração. É preciso que se saiba, por isso,  honrá-la.

 

Os advogados haverão de ser os patronos da lei e não das partes. O primeiro advogado foi o primeiro  homem que, com a influência da razão e da palavra, defendeu o seu semelhante contra a injustiça, a violência e a fraude. Aos advogados, no seu digno mister,  cabe descobrir o direito para os juizes. O desenvolvimento do direito é, por isso mesmo, primariamente trabalho do advogado, adote o juiz ou não, aquilo que o advogado apresentou no foro.

 

Não teria sido por outra razão que o período de glória e maior projeção da Corte Suprema Norte Americana coincidiu com a atuação, ao lado de juizes pontífices do direito, de grandes advogados. Ali, graças à construção jurídica  incorporada ao processo pleno da vida, mediante a interpretação, transmitiram um sopro perpétuo de vida à lei como instrumento  flexível, dinâmico, das relações cambiantes da sociedade. A lei não rege o passado, nem mesmo o presente, que lhe foge, mas o futuro que a espera.

 

A dificuldade da jurisprudência é assegurar a uma situação determinada a relativa estabilidade de direito, num meio que não cessa de mudar. Rui, nos discursos seletos, dava razão ao juiz Holmes, quando este declarava não precisamos de uma reforma da Constituição mas de uma revolução na interpretação da lei.

 

As transformações incomensuráveis das noções do individualismo já não se enxergando  mais a sociedade como um mero agregado à espera dos direitos do indivíduo, vieram impondo limites inevitáveis de todos os lados, no caminho dos direitos sociais.

 

A nova e experiente administração, chefiada pelo  Ministro Vantuil Abdala, cujo currículo caminha desde o exercício da advocacia, do magistério superior, aos trabalhos praticamente sobre todos os assuntos palpitantes do Direito do Trabalho, mediante inclusive a participação em dezenas de seminários, encontros e Congressos no Brasil e no Exterior, assume a Justiça do Trabalho enorme numa época de  Por seu lado a Justiça do Trabalho é hoje imensa: vejam-se os dados sobre os seus funcionários em número superior a 28.000 ativos aos que se somam 6.000 inativos, e o número de 300 mil processos que tramitaram neste Colendo Tribunal Superior no ano de 2003.*

 

*DADOS DA JUSTIÇA DO TRABALHO

A Justiça do Trabalho do Brasil tem 28.659 (vinte e oito mil seiscentos e cinqüenta e nove mil) servidores ativos a que se somam 6.000 (seis mil) inativos.

Conta com 2.294 (dois mil  duzentos e noventa e quatro) juizes de 1º grau entre titulares e substitutos.

Tem 24 (vinte e quatro) Tribunais Regionais nas capitais dos Estados, num total de 463 (quatrocentos e sessenta e três) juizes, mais 17 (dezessete) Ministros no Tribunal Superior do Trabalho em Brasília.

Reúne 1.109 (um mil cento e nove) Varas do Trabalho instaladas, e mais 269 (duzentas e sessenta e nove) por instalar até 2007.

No Tribunal Superior do Trabalho tramitaram em 2003, 300.000 (trezentos mil) processos. Foram julgados cerca de 100.000 (cem mil) processos nesse ano, do que resultou em resíduo de 216.267 (duzentos e dezesseis mil duzentos e sessenta e sete) processos. Todos os TRT´s juntos tiveram em 2003, 570.000 (quinhentos e setenta mil) processos julgados e um resíduo de 457.000 (quatrocentos e cinqüenta e sete mil) processos.

Nas Varas do Trabalho tramitaram, em 2003, 1.700.000 (um milhão e setecentos mil) processos entre julgados e conciliados. Em execução as Varas do Trabalho têm 1.879.620 (um milhão oitocentos e setenta e nove mil seiscentos e vinte) processos.

 

Embora se saiba que não é possível escrever sobre seu próprio tempo de vida, pois é inadmissível alguém conhecer toda a historiografia, fonte primária, acumulada pela missão erudita dos historiadores, e por isso o nosso conhecimento da história contemporânea, seja precário e irregular, vivenciamos  alguns  assuntos  palpitantes.

 

Na década dos anos 70 havia a esperança de que os problemas fossem uma pausa temporária no grande salto de eficiência da economia mundial, pelo que foram sendo buscadas soluções temporárias. Foi ficando cada vez mais claro, porém,  que se estava, nas décadas posteriores, em uma era de problemas a longo prazo: desemprego em massa, depressões cíclicas severas, contraposição cada vez mais  espetacular entre pobres e a riqueza abundante, em meio a rendas limitadas do Estado. As tensões econômicas foram minando os sistemas políticos e uma parte do mundo rumou para o colapso, revelando o mal-estar dos remanescentes.

 

A China, é verdade, emergiu no mundo internacional, mas para isso acontecer  precisou trabalhar e economizar durante 40 anos.

 

Os parâmetros políticos brasileiros, nesse contexto, deveriam ser menos mágicos, ou melhor com menos magia nas soluções salvadoras de curto prazo, pois hoje se exige tempo, muita competência e muito trabalho.

 

É preciso ter a consciência de que as vertentes do desenvolvimento se situam na tecnologia, mas com capital humano, nas regras jurídicas claras para o investimento privado do exterior ou associado no país. Os Estados brasileiros não têm condições de investir. Estão em crise fiscal e por isso o investimento privado é a alternativa possível.

 

É preciso, ainda, maior coerência entre os órgãos do Poder Judiciário e um programa de ação nacional.

 

A nova administração vai conviver também com acontecimentos internacionais espantosos, como os do  terrorismo desatinado. Não se deve esquecer, porém, que é esse terrorismo que vai gerar a senha da fraternidade.

 

O desemprego em massa é outro tema espinhoso. Mas a inundação de bebês ostentada no maior índice de natalidade do mundo, já regrediu no Brasil. Se isso acontece, a pressão dos jovens sobre o  mercado de trabalho será menor.

 

É claro, senhores Ministros, que o  entendimento nacional não exclui o confronto das idéias, a defesa de doutrinas políticas divergentes e a pluralidade de opiniões. Mas os caminhos não serão encontrados se nos limitarmos a estudar a ideologia sem a compreensão das realidades profundas a que serviu. A idéia sem equivalência existencial é uma concepção gratuita do espírito e, no campo social, uma utopia.

 

Santiago Dantas dizia que cabe à inteligência política dar,  a certos interesses,  impulsos vitais em fórmula universal que os exprima e os faça prevalecer pela aceitação geral. A ideologia política tira seu valor e sua eficácia da histórica, não tanto dos fundamentos racionais  quanto da relação profunda em que se encontra com certos imperativos da existência.

 

As reformas, Senhores Ministros, são necessárias. Na área trabalhista vivemos momentos de euforia no mercado financeiro, com os capitais obtendo bons resultados nas Bolsas e nos Bancos, e verdadeiro desespero no mercado de trabalho. Não há investimento suficiente na economia. 

 

O Fórum Nacional do Trabalho foi uma excelente idéia, propiciando as discussões esclarecedoras e alcançando consensos importantes.

 

 A Comissão Nacional de Direito e Relações do Trabalho, constituída no âmbito do Ministério do Trabalho, a qual tenho a honra de pertencer, atua com o equilíbrio do Ministro Ricardo Berzoini, e, incansável coordenação do Prof. José Francisco Siqueira Neto.  Sou testemunha de que se  tem trabalhado com entusiasmo e patriotismo.

 

No Congresso Nacional alguns projetos, porém, mostram contudo que ainda se pensa em leis sem examinar seus reflexos na economia.

 

A reforma necessária é a que ajude a reduzir o desemprego, a informalidade e o número de conflitos na Justiça do Trabalho.  O mercado de trabalho brasileiro é como afirma o ilustre sociólogo José Pastore, extremamente complexo e diversificado. Há pessoas trabalhando em empregos fixos, em serviços ocasionais, puramente casuais, por conta própria, em projetos por serviços a base de hora etc.etc.... Mas realmente: SÓ HÁ UMA LEI para  reger todas essas formas de trabalho mas que gera despesas estimadas entre 70 a 100% (cem por cento) do salário, dificultando a formalização de grande parte das atividades, nitidamente as de serviços.

 

A mudança da jurisprudência da Justiça do Trabalho a respeito, poderia minorar essa situação.

 

Em matéria de reforma, como tem declarado as autoridades da República, embora por outras palavras, há um tempo para lançar a rede e outro tempo para deixá-la secar. As soluções apressadas não são recomendáveis, porque o campo social não serve para experimentação.

 

A nova administração deste Tribunal sabe que o  Brasil tem várias vantagens comparativas. As exportações estão indo bem. A agricultura está equipada com moderníssimas máquinas para produzir mais.

 

 Estamos formando 6.0000 PHD´s por ano, índice igual ao da Itália e do Canadá. O enriquecimento do Urânio é tecnologia puramente brasileira. Os nossos livros são traduzidos em quase todas as línguas. As nossas músicas são apreciadas no mundo inteiro. Os atores e artistas, agora de novelas, são festejados em  toda a América Latina.

Nos países de educação cívica, não desenvolvida, os detentores de poder têm nas mãos a força do BEM e do MAL. Se toda civilização se encerra na liberdade, toda liberdade se esteia na segurança dos direitos individuais. Se temos a compreensão, que nosso Estado se estriba nessa verdade, e se os novos Ministros dirigentes do Poder Judiciário são a mais cabal expressão das virtudes necessárias ao atual cenário brasileiro, vamos caminhar decididamente para a consolidação da civilização, da solidariedade e do respeito mútuo.

 

O novo Presidente, como seus companheiros de administração, é homem de idéias profundas, íntegro, de honradez suprema e sinceridade plena.

 

Na vida do Ministro Presidente, como na de seus nobres pares, todos a essa altura já empossados,  não se encontra uma só mancha, mas vontade de aço e tenacidade a toda prova. Se não escrevem eles a verdade, senão com seriedade,  trabalhadores infatigáveis, são modelos que pertencem ao futuro.

 

Os advogados confiam que se todos querem, como dizia há 200 anos Tiradentes, herói enlouquecido de esperança:

 

“PODEMOS FAZER DESTE PAÍS UMA GRANDE NAÇÃO”

 

 

Muitas felicidades e muito obrigado.